Uma carta que nos chega contém a seguinte passagem:
"Acabo de ter uma discussão com o cura daqui sobre a doutrina espírita. Ao tratar da reencarnação pediu-me lhe dissesse qual dos corpos tomará o Espírito de Elias no juízo final, anunciado pela Igreja, para se apresentar ante Jesus Cristo: se será o primeiro ou o segundo. Não soube lhe responder. Ele riu e me disse que nós os Espíritas não éramos fortes."
Não sabemos qual dos dois provocou a discussão. Em todo caso, é sempre imprudente engajar-se numa controvérsia quando não se sente força para a sustentar. Se a iniciativa foi do nosso correspondente, lembraremos o que não cessamos de repetir, que "o Espiritismo se dirige aos que não crêem ou que duvidam e não aos que tem uma fé e aos quais este basta; que não diz a ninguém que renuncie às suas crenças para adotar a nossa", e nisto ele é conseqüente com os princípios de tolerância e de liberdade de consciência que professa. Por este motivo não poderíamos aprovar as tentativas feitas por certas pessoas, para converter às nossas idéias o clero de qualquer comunhão. Repetiremos, pois, a todos os Espíritas: Acolhei com dedicação os homens de boa vontade; daí luz aos que a buscam, pois com os que julgam possuí-la não tereis êxito; não façais violência à fé de ninguém, tanto do clero quanto dos leigos, pois vindes semear em campo árido; ponde a luz em evidência, para que os que querem ver a vejam; mostrai os frutos da árvore e dai a comer aos que têm fome e não aos que se dizem fartos. Se membros do clero vêm a vós com intenções sinceras e sem pensamento oculto, fazei por eles o que faríeis por vossos outros irmãos: instrui aos que pedirem, mas não busqueis trazer à força os que julgarem sua consciência comprometida a pensar diferente de vós; deixai-lhes a fé que têm, como quereis que vos deixem a vossa; mostrai-lhes, enfim, que sabeis praticar a caridade segundo Jesus. Se forem os primeiros a atacar, então têm-se direito de responder e refutar. Se abrirem a liça, é permitido segui-los, sem contudo afastar-se da moderação, de que Jesus deu exemplo aos seus discípulos. Se os nossos adversários se afastarem por si mesmos, há que lhes deixar esse triste privilégio, que jamais é prova da verdadeira força. Se nós mesmos desde algum tempo entramos na via da controvérsia, se levantamos a luva atirada por alguns membros do clero, far-nos-ão a justiça de reconhecer que nossa polêmica jamais foi agressiva. Se não tivessem sido os primeiros a atacar, jamais seu nome teria sido pronunciado por nós. Sempre desprezamos as injúrias e o personalismo de que fomos objeto, mas era nosso dever tomar a defesa dos nossos irmãos atacados e da nossa doutrina indignamente desfigurada, pois chegaram a dizer em pleno púlpito que ela pregava o adultério e o suicídio. Disse-mos e repetimos, esta provocação é desajeitada, porque leva, forçosamente, ao exame de certas questões que teria sedo melhor política deixar abafadas, porque, uma vez aberto o campo, não se sabe onde se vai parar. Mas o medo é mau conselheiro.
Dito isto, vamos tentar dar ao Sr. cura citado acima a resposta à pergunta feita. Contudo, não podemos deixar de notar que se o seu interlocutor não era tão forte quanto ele em teologia, ele mesmo não nos parece muito forte no Evangelho. Sua pergunta volta à que foi proposta a Jesus pelo Saduceus; ele não tinha senão que se referir à resposta de Jesus, que tomamos a liberdade de lha recordar, já que não a sabe.
Dito isto, vamos tentar dar ao Sr. cura citado acima a resposta à pergunta feita. Contudo, não podemos deixar de notar que se o seu interlocutor não era tão forte quanto ele em teologia, ele mesmo não nos parece muito forte no Evangelho. Sua pergunta volta à que foi proposta a Jesus pelo Saduceus; ele não tinha senão que se referir à resposta de Jesus, que tomamos a liberdade de lha recordar, já que não a sabe.
"Naquele dia os Saduceus, que negam a ressurreição, vieram encontrá-lo e lhe propuseram uma pergunta, dizendo-lhe: "Mestre, Moisés ordenou que se alguém morresse sem filhos, seu irmão desposasse sua mulher e suscitasse filhos a seu irmão morto. Ora, havia entre nós sete irmãos, dos quais o primeiro, tendo desposado uma mulher, morreu; e não tendo deixado filhos, deixou a mulher a seu irmão. A mesma coisa aconteceu ao terceiro, a todos os outros até o último. Enfim, a mulher morreu depois de todos. Assim, quando vier a ressurreição, de qual dos sete será mulher, pois foi de todos?
"Jesus lhes respondeu: "Estais em erro, pois não compreendeis as Escrituras nem o poder de Deus. Porque, depois da ressurreição, os homens não terão mulher, nem as mulheres marido; mas serão como os anjos de Deus no céu. E pelo que concerne à ressurreição dos mortos, não lestes estas palavras que Deus vos disse: Eu sou o Deus de Abrãao, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob? Ora, Deus não é o Deus dos mortos, mas dos vivos." (Mateus, XXII: 23-32).
Já que, depois da ressurreição, os homens serão como os anjos do céu e os anjos não têm corpo carnal, mas um corpo etéreo e fluídico, então os homens não mais ressuscitarão em carne e osso. Se João Batista foi Elias, não é senão uma mesma alma, tendo tido duas vestimentas deixadas em duas épocas diferentes na terra; e não se apresentará nem com uma nem a outra, mas com o envoltório etéreo, próprio ao mundo invisível. Se as palavras de Jesus não vos parecem bastante claras, lede as de São Paulo (que citamos abaixo, pág. 372); elas são ainda mais explícitas. Duvidais que João Batista tenha sido Elias? Lede São Mateus, XI, 13-15: "Porque até João, todos os profetas, tão bem quanto a lei, profetizaram; e se quereis compreender o que vos digo, é ele mesmo que é Elias que deve vir. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça." Aqui não há equívoco; os termos são claros e categóricos, e para não entender é preciso não ter ouvidos, ou querer fechá-los. Sendo estas palavras uma afirmação positiva, de duas uma: Jesus disse a verdade, ou enganou-se. Na primeira hipótese, a reencarnação é por ele atestada; na Segunda, a dúvida é lançada sobre todos os seus ensinos, pois se se enganou num ponto, pode ter-se enganado sobre os outros. Escolhei.
Agora, senhor cura, permiti que, por minha vez, vos dirija uma pergunta, que certamente vos será fácil responder.
Sabeis que a Gênesis, assinando seis dias para a criação, não só da terra, mas do universo inteiro: sol, estrelas, lua, etc., não tinha contado com a geologia e a astronomia; que Josué não tinha contado com a gravitação universal. Parece-me que o dogma da ressurreição da carne não contou com a química. É verdade que a química é uma ciência diabólica, como todas as que fazem ver claro onde queriam que se visse turvo. Mas, seja qual for a sua origem, ela nos ensina uma coisa positiva, é que o corpo do homem, como todas as substâncias orgânicas animais e vegetais, é composto de elementos diversos, dos quais os principais são: o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono. Ela ainda nos ensina - e notai que é um resultado da experiência - que com a morte, esses elementos se dispersam e entram na composição de outros corpos, tão bem que, ao cabo de um certo tempo o corpo inteiro é absorvido. É ainda constatado que o terreno onde abundam as matérias animais em decomposição são os mais férteis e é à vizinhança dos cemitérios que os maus crentes atribuem a proverbial fecundidade dos jardins dos senhores curas de aldeia. Suponhamos, então, senhor cura, que sejam plantadas batatas nas proximidades de um sepulcro: essas batatas vão alimentar-se dos gases e dos sais provenientes da decomposição do corpo do morto; vão engordar galinhas; vós comeis as galinhas, as saboreais; de tal sorte que o vosso próprio corpo será formado de moléculas do corpo do indivíduo morto, e que não deixarão de ser dele, posto tenham passado por intermediários. Então tereis em vós partes que pertenceram a outros. Ora, quando ressuscitardes ambos no dia de juízo, cada um com seu corpo, como fareis? Guardareis o que tendes do outro ou o outro retomará o que lhe pertence? OU ainda tereis algo da batata e da galinha? Pergunta ao menos tão grave quanto a de saber se João Batista ressuscitará com o corpo de João ou o de Elias. Eu a faço na maior simplicidade; mas julgai do embaraço se, como isto é certo, tendes em vós porções de centenas de indivíduos. Aí está, a bem dizer, a ressurreição da carne; outra, porém, é a do Espírito que não leva consigo os seus despojos.
Desde que estamos no terreno das perguntas, eis outra, senhor cura, que ouvimos de incrédulos. É certo que é estranha ao assunto que nos ocupa, mas é trazida por um dos fatos acima referidos. Segundo a Gênesis, Deus criou o mundo em seis dias e repousou no sétimo. É este repouso do sétimo dia que é consagrado pelo de Domingo, e cuja estrita observação é lei canônica. Se, pois, como o demonstra a geologia, esses seis dias, em vez de vinte e quatro horas, são alguns milhões de anos, qual será a duração do dia de descanso? Como importância, esta pergunta vale bem as duas outras.
Não creiais, senhor cura, que estas observações sejam resultado de um desprezo das santas Escrituras. Não; ao contrário; nós lhe rendemos uma homenagem talvez maior que a vossa. Tendo em conta a forma alegórica, nós lhes buscamos o espírito que vivifica, nelas encontramos grandes verdades e por aí levamos os incrédulos a crer e respeitá-la; ao passo que apegando-se à letra que mata, fazem-na dizer coisas absurdas e aumenta-se o número dos cépticos.
Matéria vinculada na Revista Espírita, dezembro de 1863
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