ELIAS E JOÃO BATISTA



    Uma carta que nos chega contém a seguinte passagem:

    "Acabo de ter uma discussão com o cura daqui sobre a doutrina espírita. Ao tratar da reencarnação pediu-me lhe dissesse qual dos corpos tomará o Espírito de Elias no juízo final, anunciado pela Igreja, para se apresentar ante Jesus Cristo: se será o primeiro ou o segundo. Não soube lhe responder. Ele riu e me disse que nós os Espíritas não éramos fortes."

    Não sabemos qual dos dois provocou a discussão. Em todo caso, é sempre imprudente engajar-se numa controvérsia quando não se sente força para a sustentar. Se a iniciativa foi do nosso correspondente, lembraremos o que não cessamos de repetir, que "o Espiritismo se dirige aos que não crêem ou que duvidam e não aos que tem uma fé e aos quais este basta; que não diz a ninguém que renuncie às suas crenças para adotar a nossa", e nisto ele é conseqüente com os princípios de tolerância e de liberdade de consciência que professa. Por este motivo não poderíamos aprovar as tentativas feitas por certas pessoas, para converter às nossas idéias o clero de qualquer comunhão. Repetiremos, pois, a todos os Espíritas: Acolhei com dedicação os homens de boa vontade; daí luz aos que a buscam, pois com os que julgam possuí-la não tereis êxito; não façais violência à fé de ninguém, tanto do clero quanto dos leigos, pois vindes semear em campo árido; ponde a luz em evidência, para que os que querem ver a vejam; mostrai os frutos da árvore e dai a comer aos que têm fome e não aos que se dizem fartos. Se membros do clero vêm a vós com intenções sinceras e sem pensamento oculto, fazei por eles o que faríeis por vossos outros irmãos: instrui aos que pedirem, mas não busqueis trazer à força os que julgarem sua consciência comprometida a pensar diferente de vós; deixai-lhes a fé que têm, como quereis que vos deixem a vossa; mostrai-lhes, enfim, que sabeis praticar a caridade segundo Jesus. Se forem os primeiros a atacar, então têm-se direito de responder e refutar. Se abrirem a liça, é permitido segui-los, sem contudo afastar-se da moderação, de que Jesus deu exemplo aos seus discípulos. Se os nossos adversários se afastarem por si mesmos, há que lhes deixar esse triste privilégio, que jamais é prova da verdadeira força. Se nós mesmos desde algum tempo entramos na via da controvérsia, se levantamos a luva atirada por alguns membros do clero, far-nos-ão a justiça de reconhecer que nossa polêmica jamais foi agressiva. Se não tivessem sido os primeiros a atacar, jamais seu nome teria sido pronunciado por nós. Sempre desprezamos as injúrias e o personalismo de que fomos objeto, mas era nosso dever tomar a defesa dos nossos irmãos atacados e da nossa doutrina indignamente desfigurada, pois chegaram a dizer em pleno púlpito que ela pregava o adultério e o suicídio. Disse-mos e repetimos, esta provocação é desajeitada, porque leva, forçosamente, ao exame de certas questões que teria sedo melhor política deixar abafadas, porque, uma vez aberto o campo, não se sabe onde se vai parar. Mas o medo é mau conselheiro.

    Dito isto, vamos tentar dar ao Sr. cura citado acima a resposta à pergunta feita. Contudo, não podemos deixar de notar que se o seu interlocutor não era tão forte quanto ele em teologia, ele mesmo não nos parece muito forte no Evangelho. Sua pergunta volta à que foi proposta a Jesus pelo Saduceus; ele não tinha senão que se referir à resposta de Jesus, que tomamos a liberdade de lha recordar, já que não a sabe.

    "Naquele dia os Saduceus, que negam a ressurreição, vieram encontrá-lo e lhe propuseram uma pergunta, dizendo-lhe: "Mestre, Moisés ordenou que se alguém morresse sem filhos, seu irmão desposasse sua mulher e suscitasse filhos a seu irmão morto. Ora, havia entre nós sete irmãos, dos quais o primeiro, tendo desposado uma mulher, morreu; e não tendo deixado filhos, deixou a mulher a seu irmão. A mesma coisa aconteceu ao terceiro, a todos os outros até o último. Enfim, a mulher morreu depois de todos. Assim, quando vier a ressurreição, de qual dos sete será mulher, pois foi de todos?

    "Jesus lhes respondeu: "Estais em erro, pois não compreendeis as Escrituras nem o poder de Deus. Porque, depois da ressurreição, os homens não terão mulher, nem as mulheres marido; mas serão como os anjos de Deus no céu. E pelo que concerne à ressurreição dos mortos, não lestes estas palavras que Deus vos disse: Eu sou o Deus de Abrãao, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob? Ora, Deus não é o Deus dos mortos, mas dos vivos." (Mateus, XXII: 23-32).

    Já que, depois da ressurreição, os homens serão como os anjos do céu e os anjos não têm corpo carnal, mas um corpo etéreo e fluídico, então os homens não mais ressuscitarão em carne e osso. Se João Batista foi Elias, não é senão uma mesma alma, tendo tido duas vestimentas deixadas em duas épocas diferentes na terra; e não se apresentará nem com uma nem a outra, mas com o envoltório etéreo, próprio ao mundo invisível. Se as palavras de Jesus não vos parecem bastante claras, lede as de São Paulo (que citamos abaixo, pág. 372); elas são ainda mais explícitas. Duvidais que João Batista tenha sido Elias? Lede São Mateus, XI, 13-15: "Porque até João, todos os profetas, tão bem quanto a lei, profetizaram; e se quereis compreender o que vos digo, é ele mesmo que é Elias que deve vir. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça." Aqui não há equívoco; os termos são claros e categóricos, e para não entender é preciso não ter ouvidos, ou querer fechá-los. Sendo estas palavras uma afirmação positiva, de duas uma: Jesus disse a verdade, ou enganou-se. Na primeira hipótese, a reencarnação é por ele atestada; na Segunda, a dúvida é lançada sobre todos os seus ensinos, pois se se enganou num ponto, pode ter-se enganado sobre os outros. Escolhei.

    Agora, senhor cura, permiti que, por minha vez, vos dirija uma pergunta, que certamente vos será fácil responder.

    Sabeis que a Gênesis, assinando seis dias para a criação, não só da terra, mas do universo inteiro: sol, estrelas, lua, etc., não tinha contado com a geologia e a astronomia; que Josué não tinha contado com a gravitação universal. Parece-me que o dogma da ressurreição da carne não contou com a química. É verdade que a química é uma ciência diabólica, como todas as que fazem ver claro onde queriam que se visse turvo. Mas, seja qual for a sua origem, ela nos ensina uma coisa positiva, é que o corpo do homem, como todas as substâncias orgânicas animais e vegetais, é composto de elementos diversos, dos quais os principais são: o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono. Ela ainda nos ensina - e notai que é um resultado da experiência - que com a morte, esses elementos se dispersam e entram na composição de outros corpos, tão bem que, ao cabo de um certo tempo o corpo inteiro é absorvido. É ainda constatado que o terreno onde abundam as matérias animais em decomposição são os mais férteis e é à vizinhança dos cemitérios que os maus crentes atribuem a proverbial fecundidade dos jardins dos senhores curas de aldeia. Suponhamos, então, senhor cura, que sejam plantadas batatas nas proximidades de um sepulcro: essas batatas vão alimentar-se dos gases e dos sais provenientes da decomposição do corpo do morto; vão engordar galinhas; vós comeis as galinhas, as saboreais; de tal sorte que o vosso próprio corpo será formado de moléculas do corpo do indivíduo morto, e que não deixarão de ser dele, posto tenham passado por intermediários. Então tereis em vós partes que pertenceram a outros. Ora, quando ressuscitardes ambos no dia de juízo, cada um com seu corpo, como fareis? Guardareis o que tendes do outro ou o outro retomará o que lhe pertence? OU ainda tereis algo da batata e da galinha? Pergunta ao menos tão grave quanto a de saber se João Batista ressuscitará com o corpo de João ou o de Elias. Eu a faço na maior simplicidade; mas julgai do embaraço se, como isto é certo, tendes em vós porções de centenas de indivíduos. Aí está, a bem dizer, a ressurreição da carne; outra, porém, é a do Espírito que não leva consigo os seus despojos.

    Desde que estamos no terreno das perguntas, eis outra, senhor cura, que ouvimos de incrédulos. É certo que é estranha ao assunto que nos ocupa, mas é trazida por um dos fatos acima referidos. Segundo a Gênesis, Deus criou o mundo em seis dias e repousou no sétimo. É este repouso do sétimo dia que é consagrado pelo de Domingo, e cuja estrita observação é lei canônica. Se, pois, como o demonstra a geologia, esses seis dias, em vez de vinte e quatro horas, são alguns milhões de anos, qual será a duração do dia de descanso? Como importância, esta pergunta vale bem as duas outras.

    Não creiais, senhor cura, que estas observações sejam resultado de um desprezo das santas Escrituras. Não; ao contrário; nós lhe rendemos uma homenagem talvez maior que a vossa. Tendo em conta a forma alegórica, nós lhes buscamos o espírito que vivifica, nelas encontramos grandes verdades e por aí levamos os incrédulos a crer e respeitá-la; ao passo que apegando-se à letra que mata, fazem-na dizer coisas absurdas e aumenta-se o número dos cépticos.

    Matéria vinculada na Revista Espírita, dezembro de 1863

As Relíquias da Paixão de Cristo



       Como sabem os católicos, assim como todos aqueles interessados na vida e obra de nosso Avatar Jesus, existem um grande número de relíquias relacionadas à paixão de Cristo espalhadas pelo mundo. Número este que chega à casa do milhar.
       Qualquer um que tenha uma noção de Sua vida e da Sua Paixão, pode intuir que este número é tão absurdo quanto impossível.
       Na Basílica de Saint-Denis, em Argentenil - ao norte de Paris, conserva-se por exemplo, uma suposta "túnica sagrada". E outro tanto ocorre na catedral de Trévaux. Com o devido respeito aos que crêem em ambas as túnicas, é pouco provável que uma delas possa ser a que usou o Mestre Jesus. Na primeira, não obstante as dimensões serem aceitáveis (1.45m de comprimento por 1.15m de largura) e não exibir costuras, o cânhamo nada tem a ver com a natureza das vestimentas usadas habitualmente pelos hebreus à época - que basicamente se utilizavam de algodão, lã e linho. Quanto à segunda, ainda é mais difícil de identificar. Trata-se de uma série de fragmentos de um tecido muito fino e pardacento, envolto e protegido das traças em dois panos. Um destes é de seda adamascada, fabricado possivelmente no Oriente, entre os séculos VI e IX.
       Quanto aos cravos e à Cruz de Cristo, ocorre algo ainda mais berrante. Há uma tradição que conta que a Imperatriz Santa Helena desenterrou os cravos utilizados para prender O Cristo à Cruz no século IV. Segundo esta lenda, a Imperatriz teria mandado confeccionar um freio para o cavalo de seu filho com um dos cravos (que se encontra hoje em Carpentras).
       Com outro fez um círculo para o capacete de Constantino, e diz-se que este círculo faz parte hoje da coroa de ferro dos reis lombardos, em Monza.
       O terceiro cravo teria servido para acalmar uma tempestade no mar Adriático... O caso é que na atualidade, em diversas igrejas da Europa, se veneram supostos cravos da Paixão de Cristo, totalizando dez(!) destes. Surpreendente, se partirmos do suposto que eram quatro os cravos para prender os crucificados - um em cada pulso e um em cada pé. Outros se encontram em Veneza, Trévaux, Florença, Sena, Paris e em Arras.
       O mesmo ocorre com respeito à madeira da Cruz de Jesus. Existem pedaços da Cruz de praticamente todos os tamanhos. Todas, é claro, extraídas da verdadeira Cruz. Talvez o maior fragmento seja o que se encontra na Espanha - em São Toríbio de Liébana, na província de Santarém, ao norte. A tradição afirma que este lignum crucis foi levado de Jerusalém por São Toríbio, bispo de Astorga, na Espanha, e contemporâneo de São Leão I, o Grande. Sua autenticidade nunca foi comprovada...
       Se pararmos para pensar sobre esta tradição, veremos que tende ao absurdo imaginar que os soldados perdessem seu tempo enterrando os cravos e as cruzes utilizados em cada execução, como pretendem alguns exegetas em defesa da história da mencionada mãe do Imperador Constantino. De fato, é mais provável que as cruzes e os próprios cravos fossem re-utilizados em diversas execuções.
       Particularmente, acho que isso é "providencial". Tenho comigo o sentimento que o Filho do Homem não queria - nem gostaria - que objetos Seus fossem venerados ao longo dos tempos. Jesus veio à Terra como um Mensageiro - Mensageiro da Paz e do Amor - e sofreu por nós. Infelizmente não estávamos preparados para receber e assimilar estas mensagens à época (e a pergunta fica: e se tudo acontecesse agora, será que estaríamos prontos?...).
       Ao invés de ficarmos venerando objetos materiais que podem ou não ter pertencido a este Espírito Iluminado, devíamos única e exclusivamente nos preocupar em praticar seus ensinamentos.

Judá

Entender a história de Judá é fundamental para entender todo o Velho Testamento. Até o século VIII a.C., Judá era apenas uma reunião de tribos vivendo numa região desértica do sul da Palestina. Em 722 a.C., porém, os assírios resolvem conquistar as ricas planícies e cidades de Israel - o reino do norte, mais desenvolvido economicamente e mais culto. Judá, no sul, que não pareceu interessar aos assírios, pôde continuar independente, desde que pagasse tributos ao império assírio.
Assim, enquanto no norte acontece uma desintegração dos hebreus, levados para a Assíria como escravos, no sul eles continuam unidos em torno do Templo de Jerusalém. Judá beneficiou-se enormemente da destruição do reino do norte. Jerusalém cresceu rapidamente e cidades como Lachish, que servia de passagem antes de chegar a Jerusalém, foram fortificadas. Era o momento de Judá tomar a frente dos hebreus. Para isso, precisaria de duas coisas: um rei forte e um arsenal ideológico capaz de convencer as tribos do norte de que Judá fora escolhida por Deus para unir os hebreus. Além disso, era preciso combater o politeísmo que voltava a crescer no norte.
Josias foi o candidato a assumir a posição de rei unificador. Durante uma reforma no Templo de Jerusalém, em seu governo, foi "encontrado" (na verdade, não há dúvidas de que o livro foi colocado ali de propósito) o livro Deuteronômio, com todos os ingredientes para um ampla reforma social e religiosa. O livro possui até profecias que afirmam, por exemplo, que um rei chamado Josias, da casa de David, seria escolhido por Deus para salvar os hebreus. Ungido pelo relato do livro, o ardiloso Josias consegue seu objetivo de centralizar o poder, mas acaba morto em batalha. Judá revolta-se contra os assírios e o rei da Assíria, Senaqueribe, invade a região, destruindo Lachish e submetendo Jerusalém. A destruição de Lachish, narrada com riqueza de detalhes na Bíblia, também aparece num relevo encontrado em Nínive, a antiga capital assíria. E as escavações comprovaram que a Bíblia e o relevo são fiéis ao acontecido. Ou seja: nesse caso, a arqueologia provou que a Torá foi fiel aos fatos.

David e Salomão


Há pouca dúvida de que David e Salomão existiram. Mas há muita controvérsia sobre seu verdadeiro papel na história do povo hebreu. A Bíblia diz que a primeira unificação das tribos hebraicas aconteceu no reinado de Saul. Seu sucessor, David, organizou o Estado hebraico, eliminando adversários e preparando o terreno para que seu filho, Salomão, pudesse reinar sobre um vasto império. O período salomônico (970 a.C. a 930 a.C.) teria sido marcado pela construção do Templo de Jerusalém e a entronização da Arca da Aliança em seu altar.
Não há registros históricos ou arqueológicos da existência de Saul, mas a arqueologia mostra que boa parte dos hebreus ainda vivia em aldeias nas montanhas no período em que ele teria vivido (por volta de 1000 a.C.) - assim, Saul seria apenas um entre os muitos líderes tribais hebreus. Quanto a David, há pelos menos um achado arqueológico importante: em 1993 foi encontrada uma pedra de basalto datada do século IX a.C. com escritos que mencionam um rei David.
Por outro lado, não há qualquer evidência das conquistas de David narradas na Bíblia, como sua vitória sobre o gigante Golias. Ao contrário, as cidades canaanitas mencionadas como destruídas por seus exércitos teriam continuado sua vida normalmente. Na verdade, David não teria sido o grande líder que a Bíblia afirma. Seu papel teria sido muito menor. Ele pode ter sido o líder de um grupo de rebeldes que vivia nas montanhas, chamados apiru (palavra de onde deriva a palavra hebreu) - uma espécie de guerrilheiro que ameaçava as cidades do sul da Palestina. Quanto ao império salomônico cantado em verso e prosa na Torá hebraica, a verdade é que não foram achadas ruínas de arquitetura monumental em Jerusalém ou qualquer das outras cidades citadas na Bíblia.
O principal indício de que as conquistas de David e o império de Salomão são, em sua maior parte, invenções é que, no período em que teriam vivido, a arqueologia prova que a cultura canaanita (que, segundo a Bíblia, teria sido destruída) continuava viva. A conclusão é que David e Salomão teriam sido apenas pequenos líderes tribais de Judá, um Estado pobre e politicamente inexpressivo localizado no sul da Palestina.
Na verdade, o grande momento da história hebraica teria acontecido não no período salomônico, mas cerca de um século mais tarde. Entre 884 e 873 a.C., foi fundada Samária, a capital do reino de Israel, no norte da Palestina, sob a liderança do rei israelita Omri. Enquanto Judá permanecia pobre e esquecida no sul, os israelitas do norte faziam alianças com os assírios e viviam um período de grande desenvolvimento econômico. A arqueologia demonstrou que os monumentos normalmente atribuídos a Salomão foram, na verdade, erguidos pelos omridas. Ou seja: o primeiro grande Estado judaico não teve a liderança de Salomão, e sim dos reis da dinastia omrida.
Enriquecido pelos acordos comerciais com Assíria e Egito, o rei Ahab, filho de Omri, ordena a construção dos palácios de Megiddo e as muralhas de Hazor, entre outras obras. Hoje, os restos arqueológicos desses palácios e muralhas são o principal ponto de discórdia entre os arqueólogos que estudam a Torá. Muitos ainda os atribuem a Salomão, numa atitude muito mais de fé do que de rigor científico, já que as datações mais recentes indicam que Salomão nunca ergueu palácios.

O Dilúvio


O Gênesis, a história do dilúvio é uma das poucas que ainda alimenta o interesse dos cientistas, depois que os físicos substituíram a criação do mundo pelo Big Bang e Darwin substituiu Adão pelos macacos. O que intrigou os pesquisadores foi o fato de uma história parecida existir no texto épico babilônico de Gilgamesh - o que sugere que uma enchente de enormes proporções poderia ter acontecido no Oriente Médio e na Ásia Menor. Parte do mistério foi solucionado quando os filólogos conseguiram demonstrar que a narrativa do Gênesis é uma apropriação do mito mesopotâmico. "Não há dúvida de que os hebreus se inspiraram no mito de Gilgamesh para contar a história do dilúvio", afirma Rafael Rodrigues da Silva, professor do Departamento de Teologia da PUC de São Paulo, especialista na exegese do Antigo Testamento.
O povo hebreu entrou em contato com o mito de Gilgamesh no século VI a.C. Em 598 a.C., o rei babilônico Nabucodonosor, depois de conquistar a Assíria, invadiu e destruiu Jerusalém e seu templo sagrado. No ano seguinte, os judeus foram deportados para a Babilônia como escravos. O chamado exílio babilônico durou 40 anos. Em 538 a.C., Ciro, o fundador do Império Persa, depois de submeter a Babilônia permitiu o retorno dos judeus à Palestina. Os rabinos ou "escribas" começaram a reconstruir o Templo e a reescrever o Gênesis para, de alguma forma, dar um sentido teológico à terrível experiência do exílio. Assim, a ameaça do dilúvio seria uma referência à planície inundável entre os rios Tigre e Eufrates, região natal de Nabucodonosor; os 40 dias de chuva seriam os 40 anos do exílio; e a aliança final de Deus com Noé, marcada pelo arco-íris, uma promessa divina de que os judeus jamais seriam exilados.
Solucionado o mistério do dilúvio na Bíblia, continua o da sua origem no texto de Gilgamesh. No final da década de 90, dois geólogos americanos da Universidade Columbia, Walter Pittman e Willian Ryan, criaram uma hipótese: por volta do ano 5600 a.C., ao final da última era glacial, o Mar Mediterrâneo havia atingido seu nível mais alto e ameaçava invadir o interior da Ásia na região hoje ocupada pela Turquia, mais precisamente a Anatólia. Num evento catastrófico, o Mediterrâneo irrompeu através do Estreito de Bósforo, dando origem ao Mar Negro como o conhecemos hoje. Um imenso vale de terras férteis e ocupado por um lago foi inundado em dois ou três dias.
Os povos que ocupavam os vales inundados tiveram que fugir às pressas e o mais provável é que a maioria tenha morrido. Os sobreviventes, porém, tinham uma história inesquecível, que ecoaria por milênios. Alguns deles, chamados ubaids, atravessaram as montanhas da Turquia e chegaram à Mesopotâmia, tornando-se os mais antigos ancestrais de sumérios, assírios e babilônios. Estaria aí a origem da narrativa de Gilgamesh. Essa teoria foi recebida por arqueólogos e antropólogos como fantástica demais para ser verdadeira.
No entanto, no verão de 2000, o caçador de tesouros submersos Robert Ballard, o mesmo que encontrou os restos do Titanic, levou suas poderosas sondas para analisar o fundo do Mar Negro nas proximidades do que deveriam ser vales de rios antes do cataclisma aquático. Ballard encontrou restos de construções primitivas e a análise da lama colhida em camadas profundas do oceano provaram que, há 7 600 anos, ali existia um lago de água doce. A hipótese do grande dilúvio do Mar Negro estava provada.

O Êxodo



Não há registro arqueológico ou histórico da existência de Moisés ou dos fatos descritos no Êxodo. A libertação dos hebreus, escravizados por um faraó egípcio, foi incluída na Torá provavelmente no século VII a.C., por obra dos escribas do Templo de Jerusalém, em uma reforma social e religiosa. Para combater o politeísmo e o culto de imagens, que cresciam entre os judeus, os rabinos inventaram um novo código de leis e histórias de patriarcas heróicos que recebiam ensinamentos diretamente de Jeová. Tais intenções acabaram batizadas de "ideologia deuteronômica", porque estão mais evidentes no livro Deuteronômio. A prova de que esses textos são lendas estaria nas inúmeras incongruências culturais e geográficas entre o texto e a realidade. Muitos reinos e locais citados na jornada de Moisés pelo deserto não existiam no século XIII a.C., quando o Êxodo teria ocorrido. Esses locais só viriam a existir 500 anos depois, justamente no período dos escribas deuteronômicos. Também não havia um local chamado Monte Sinai, onde Moisés teria recebido os Dez Mandamentos. Sua localização atual, no Egito, foi escolhida entre os séculos IV e VI d.C., por monges cristãos bizantinos, porque ele oferecia uma bela vista. Já as Dez Pragas seriam o eco de um desastre ecológico ocorrido no Vale do Nilo quando tribos nômades de semitas estiveram por lá.
Vejamos agora o caso de Abraão, o patriarca dos judeus. Segundo a Bíblia, ele era um comerciante nômade que, por volta de 1850 a.C., emigrou de Ur, na Mesopotâmia, para Canaã (na Palestina). Na viagem, ele e seus filhos comerciavam em caravanas de camelos. Mas não há registros de migrações de Ur em direção a Canaã que justifiquem o relato bíblico e, naquela época, os camelos ainda não haviam sido domesticados. Aqui também há erros geográficos: lugares citados na viagem de Abraão, como Hebron e Ber-
sheba, nem existiam então. Hoje, a análise filológica dos textos indica que Abraão foi introduzido na Torá entre os séculos VIII e VII a.C. (mais de 1 000 anos após a suposta viagem).
Então, como surgiu o povo hebreu? Na verdade, hebreus e canaanitas são o mesmo povo. Por volta de 2000 a.C., os canaanitas viviam em povoados nas terras férteis dos vales, enquanto os hebreus eram nômades das montanhas. Foi o declínio das cidades canaanitas, acossadas por invasores no final da Idade do Bronze (300 a.C. a 1000 a.C.), que permitiu aos hebreus ocupar os vales. Segundo a Bíblia, os hebreus conquistaram Canaã com a ajuda dos céus: na entrada de Jericó, o exército hebreu toca suas trombetas e as muralhas da cidade desabam, por milagre. Mas a ciência diz que Jericó nem tinha muralhas nessa época. A chegada dos hebreus teria sido um longo e pacífico processo de infiltração.

Afinal quem foi Jesus


 

Loiro ou moreno?
Religioso ou revolucionário?
Documentos que devem ser divulgados até o final deste ano podem revelar a verdadeira face de Jesus-homem.

Nunca, ao longo desses 2 mil anos de Era Cristã, falou-se tanto sobre Jesus como nestas últimas duas décadas. Agora mesmo o filme Stigmata, que traz trechos do secretíssimo Evangelho de Tomé, está entre os mais procurados nas locadoras de vídeo. Livros, CDs, revistas - Jesus é top em todas as mídias.
Não é sem razão, portanto, que pesquisadores católicos, judeus, protestantes, místicos e agnósticos estejam mergulhados em leituras mais apuradas do Novo Testamento e examinem o que podem, exaustivamente, de antigos manuscritos descobertos em Israel e no Egito. O objetivo é um só: encontrar pistas mais precisas que revelem quem, de fato, foi o homem de Nazaré.
O resultado desse trabalho de fôlego é que o Jesus fragmentado, quase sempre apresentado apenas como um mito religioso, começa, agora, a tomar novos contornos históricos e pessoais. É verdade que ainda existem controvérsias sobre a sua real personalidade, o que fez e onde esteve dos 12 aos 30 e poucos anos, e o que queria dizer exatamente com suas célebres parábolas. Mas para o quase nada que se sabia de sua existência real, tais controvérsias, que certamente vão atravessar o século 21, são importantes.
Elas permitem questionar, e até mesmo entender, com mais clareza, certas passagens dos evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João. É também, a partir delas, que emerge o Jesus-homem, de idéias meio malucas para sua época, por vezes duro com seus adversários e discípulos, problemático em relação à sua familia, e que, conforme ditam as leis naturais, nasceu, cresceu, foi feliz, sofreu e morreu. Jesus, desse modo, é uma outra história.
Ditos de São Tomé
Vamos começar a redescobrir Jesus, indo até o ano de 1945, quando nativos da região de Nag Hammadi, no Egito, acharam cinquenta pergaminhos escritos em copta, língua falada pelos egípcios, nos primeiros anos da cristandade.
Eruditos de peso, como o egiptólogo francês Jean Doresse, e James Charlesworth, teólogo da Universidade de Princeton, nos EUA, surpreenderam-se com parte do conteúdo dos pergaminhos: neles havia revelações sobre Jesus, atribuídas a um tal de Tomé, inexistentes nos textos canônicos. Que o achado arqueológico era autêntico ninguém contestava - alguns especialistas em linguística, inclusive, acreditavam estar diante de uma tradução copta do aramaico, idioma que, como se verá mais tarde, era o mais popular na comunidade judaica em que Jesus viveu. O que não se tinha certeza era se esse Tomé era o mesmo Tomé que compartilhou do ministério de Jesus, na Palestina dominada pelos césares de Roma, por volta dos anos 27 a 30.
A dúvida gerou polêmica. De um lado, a Igreja Católica negava qualquer semelhança entre o Tomé apóstolo e o Tomé de Nag Hammadi. Para o Vaticano, tratava-se de um texto apócrifo, isto é, falso, uma vez que ele não reafirmava as verdades das Sagradas Escrituras. E, com esse argumento, o Vaticano ignorou (pelo menos oficialmente) Tomé. Os cristãos gnósticos, que desde muito tempo vinham colecionando apócrifos, como os Atos de João, o Apocalipse de Pedro e os Atos de Felipe, escritos quase à mesma época dos canônicos, entre 70 e l00 anos depois de Cristo, mas de conteúdo estritamente filosófico, não só reconheceram Tomé como um dos doze apóstolos como batizaram o achado de "Quinto Evangelho". E recorreram a João, capítulo 21, versículo 25, para justificar esta irreverente decisão: "Muitas coisas fez Jesus. Se todas elas fossem escritas, nem no mundo inteiro caberiam os livros sobre ele".
O assunto esquentou mais ainda quando teólogos de renome como William D. Stocker, autor do ensaio "Palavras Extracanônicas de Jesus", anunciaram que os pergaminhos de Nag Hammadi, na verdade não eram inéditos, estavam em voga por volta do ano 320 depois de Cristo. E ao revirar as páginas de livros de historiadores de nossos primeiros séculos, a exemplo de Filon, o Judeu, e Flávio Josefo, chegaram à mais fascinante suposição: o Evangelho de Tomé teria sido, durante muito tempo, o livro sagrado dos essênios, religiosos judeus de rígida conduta moral. Esse é um detalhe significativo, pois como se verá daqui a pouco, ao falarmos dos manuscritos do Mar Morto, os essênios também esperavam por um messias chamado Jesus.
Três Pessoas
Aqui, é preciso abrir parênteses para expor um episódio esclarecedor sobre essas ações tão radicais da igreja primitiva. É que Constantino, imperador romano na época, recém-convertido ao cristianismo, foi pressionado por sua corte a elaborar um conceito de Deus que agradasse às facções cristãs que tinham Jesus como salvador dos pecados do mundo. "Algo parecido com uma moderna negociação de administração única", comenta o professor Eric Butterworth, da Escola de Cristandade, em Lee's Summit, no estado norte-americano de Missouri. Constantino convocou, então, em 325, o célebre Conselho de Nicéia. E, entre tapas e beijos - dois altos dignatários cristãos, Ário e Nicolau de Mira, trocaram socos e depois mesuras durante os debates -, um grupo de homens decidiu que Deus era três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. À revelia naturalmente de Jesus, principal personagem de toda a trama, pois ele, nem no Novo Testamento nem nos apócrifos, jamais se referiu à Trindade. O que, unanimemente, todos os evangelhos expressam é: "Eu (Jesus) e o Pai somos um".
A partir de Nicéia, então, tudo o que não estivesse de acordo com os ditames de Roma era queimado ou, no mínimo, proibido. Isso só não aconteceu com o evangelho de Tomé porque, conta-se, um monge gnóstico copiou-o, encerrou-o numa urna e levou-o para o Egito, onde foi encontrado mais de l.600 anos depois.
Ver para crer. É por esse dito que, geralmente, nos lembramos de Tomé. Ou Didimo Judas Tomé que era seu nome completo. Mas, afinal, quem é ele? Segundo especialistas em língua antiga, Tomé, em hebreu, significa gêmeo. Didimo, em grego, também quer dizer gêmeo. É preciso explicar aqui o seguinte: na Palestina de 2 mil anos atrás, falavam-se três idiomas: o aramaico, do povo; o hebraico, dos intelectuais judeus; e o grego, dos comerciantes. Talvez por essa razão, gêmeos aparece nas duas versões. Resta o nome Judas, que, em hebraico, é agradecimento. É razoável supor, a partir daí, que o verdadeiro autor do evangelho de Nag Hammadi seria Judas, o gêmeo. Poucos pesquisadores se atreveram a entrar nessa seara, e os que o fizeram, como Helmut Koester, em sua obra Evangelhos Canônicos e Apócrifos, limitaram-se a extraordinários exercícios de raciocínio, diante de trechos do Evangelho de Tomé, de Marcos, Mateus e João que fazem referência aos irmãos de Jesus, e ao apelido gêmeo. No trecho de Tomé lê-se "... Não, não sou Judas Tomé, sou seu irmão", teria dito Jesus ao ser confundido com o apóstolo. Em Marcos 6:3 e Mateus l3:55 está escrito: "...Ele (Jesus) não é o filho do carpinteiro? A sua mãe não é Maria? Não é irmão de Tiago, José, Simão e Judas?". Em João 11:16 lê-se "...Então Tomé, chamado de o Gêmeo, disse aos seus companheiros..".
O que se pode inferir daí? Em princípio, duas coisas. A primeira é que Jesus tinha irmãos - e este fato é aceito pela maioria dos teólogos modernos. A segunda, é que Judas Tomé e Jesus seriam gêmeos, e, nesse caso, estaria explicado por que pinturas antigas exibem dois meninos-Jesus, juntos e iguais.
Os Manuscritos
Chegou o momento de folhear o que se conhece dos manuscritos encontrados a partir de 1947 em onze cavernas da província de Qumram, no atual Israel, às margens do Mar Morto. Infelizmente, o que se conhece quase trinta anos depois de se ter achado, em l967, os últimos rolos dos pergaminhos, é muito pouco . A comissão de teólogos de várias correntes religiosas, a metade católicos, que vem sigilosamente estudando os manuscritos, já adiou, por duas vezes, uma em 1970, a outra em 1975, suas conclusões. Nesse meio tempo, o único membro não religioso da comissão, o professor John Allegro, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, protestou publicamente quando soube que a maioria dos rolos ficaria sob a guarda única do presidente da comissão, o padre dominicano Roland de Vaux.
Um desses rolos, em especial, tinha fascinado Allegro: eram passagens do Evangelho de Marcos, datadas de 50 depois de Cristo, e, portanto, anteriores às dos outros evangelhos. Segundo Allegro, esses textos conteriam revelações capazes de mudar, substancialmente, o Novo Testamento. "Espera-se que tudo o que está enrustido venha a público em até o final deste ano, quando devem ser encerrados os trabalhos da indevassável comissão" comenta Allegro. "Será uma boa nova", ironizam cientistas ávidos em devorar o relatório oficial sobre a documentação do Mar Morto. Explica-se a ironia: boa nova é a tradução da palavra hebraica Evangelho.
No momento, resta o consolo de saber o que se tem à mão é pelo menos o suficiente para traçar mais algumas linhas da história que estamos contando. São pedaços de pergaminhos que compreendem, principalmente, literatura religiosa: por exemplo, toda a Bíblia hebraica (Antigo Testamento), à exceção do Livro de Ester, e episódios marcantes da vida dos essênios. A Bíblia, segundo arqueólogos e paleólogos de renome, é mil anos mais antiga que o mais antigo documento aparecido até hoje sobre o assunto.
O Mestre da Retidão
Até aqui, aparentemente, não há nada que sinalize uma ligação entre Jesus e os essênios, como suspeita, por exemplo, o pesquisador, escritor e jornalista Gerald Messadié. Ao ler, porém, trechos de quatro pergaminhos essênios - o Preceito da Comunidade, o Preceito de Damasco, o Preceito da Guerra e o Preceito do Messianismo -, descobriu-se que os membros da seita, quase um século antes de Cristo, eram liderados pelo misterioso Mestre da Retidão. Esse mestre, como Jesus faria mais tarde, pregava o batismo, o jejum, o celibato, e conclamava seus seguidores a repartir seus bens materiais. Tinha o dom da cura - a um simples sinal que fazia com as mãos os doentes ficavam bons - e conhecia as propriedades medicinais de centenas de plantas orientais. Tinha ainda doze discípulos e profetizava a vinda de um Messias de nome Joshua (Josué), que, segundo ele,seria o seu sucessor. Dá para notar que existe uma incrível semelhança entre as prédicas do Mestre da Retidão e as de Jesus. O mais intrigante é que o nome Jesus é uma corruptela de Josué. Por tudo isso, é difícil resistir à pergunta: Jesus teria estado entre os essênios?
O professor John Allegro acredita que há pegadas visíveis de Jesus entre os essênios, principalmente quando se recorre à linguística. Diz Allegro que os essênios usavam o termo kharash (mago) ao se referirem a uma pessoa de poderes extraordinários. E que, nos Atos dos Apóstolos, Jesus é descrito como alguém que produz maravilhas, um kharash. Mais: nos evangelhos canônicos Jesus é chamado de filho do carpinteiro. E, curiosamente, continua Allegro, carpinteiro, em hebraico, também é kharash.
Allegro vai mais além dessas coincidências idiomáticas. Ao garimpar o conteúdo do Preceito da Comunidade, ele encontrou muitos outros pontos comuns em Jesus e nos essênios. Os doze apóstolos de Mestre da Retidão, da mesma forma que os apóstolos de Jesus, costumavam atravessar o deserto da Judéia para levar suas crenças a Jerusalém, Betânia, Cafarnaum e outros centros urbanos da Palestina de então. É ainda curioso que o Mestre da Retidão tivesse reunido seus discípulos para uma ceia regada a pão e vinho, pouco antes de ser preso e crucificado por romanos e judeus. Os essênios colecionavam também provérbios, orações e parábolas idênticos aos transmitidos por Jesus no Sermão da Montanha.
O Messias dos Essênios
Finalmente, a comunidade essênia era conhecida como Nova Aliança, termo aramaico que, mais tarde, os cristãos traduziriam por Novo Testamento.
Diante desse pacote de singulares revelações, e considerando que nenhuma delas aparece no Novo Testamento, o professor Allegro formula duas hipóteses para a questão: ou o Novo Testamento está mal contado ou os essênios são uma mentira. Como os pergaminhos que contêm os preceitos essênios são "isentos de censura , tanto cristã quanto judaica", como sustenta o respeitadíssimo teólogo Geza Vermes, em seu livro Os Manuscritos do Mar Morto, a conclusão para Allegro é óbvia: o Novo Testamento precisa ser revisto.
Quem não tem nenhuma dúvida de que Jesus viveu muito tempo entre os essênios é Gerald Messadié, que, entre outros best-sellers, escreveu O Homem que se Tornou Deus. Messadié, depois de devorar tudo o que pôde sobre Qumram, concluiu, inclusive, que Jesus foi introduzido na seita essênica por seu primo, João Batista. "Ele (Batista) era um essênio: falava a linguagem deles, jejuava, pregava no deserto, e, da mesma forma que o Mestre da Retidão, anunciava a vinda de um messias", esclarece Messadié .
Em todos os trechos canônicos ou apócrifos, porém, João só vai aparecer na história bíblica, às margens do Rio Jordão, praticando o batismo. Como Messadié explica este fato? "Não é bem assim. Há registros no Preceito da Comunidade de um essênio que estaria destinado a batizar o esperado messias e iniciá-lo na vida pública. E foi o que aconteceu com João Batista", argumenta ele.
São muitos os pesquisadores que pensam igual a Messadié. Ninguém melhor, porém, do que o teólogo norte-americano Jack Potter para encerrar esse capítulo sobre Jesus e os essênios. Diz Potter: "Os eruditos estão gradualmente admitindo que Jesus estudou na escola essênica, durante anos. São evidentes os paralelos entre a doutrina de Jesus e a do Mestre da Retidão. E é muito provável que Jesus o tenha sucedido. Mas isso, por enquanto, está sendo visto com reservas, para não abalar os fundamentos de nossa religião cristã".
Enigmas
Desvendando o misterioso sumiço de Jesus desde os 12 anos, quando assombrou os doutores do Sinédrio com sua sabedoria, até o começo de seu ministério, aos 30 e poucos anos de idade, passemos à tarefa de decifrar outros formidáveis enigmas: quando e onde ele nasceu, como era fisicamente, como era sua família, que língua falava, quando e como morreu, e com que idade.
Foi o incansável e aplicado professor John Meier quem, nos últimos cinco anos, mais investigou essas questões, embora não se possam desprezar, também, as diligências de Gerald Messadié e de Geza Vermes. Para que fiquem bem claros os comentários sobre aqueles pontos, nada melhor do que abordá-los em forma de tópicos.
Quando Jesus nasceu - Meier pinça trechos de Mateus e Lucas para supor que Jesus nasceu pouco antes da morte de Herodes, O Grande. De acordo com Mateus 2:l6, Herodes, ao saber do nascimento de Jesus, e com receio de que ele fosse mesmo o futuro rei dos judeus, ordenou a morte de todas as crianças do sexo masculino da cidade de Belém e de seus arredores, de dois anos para baixo. Dois anos, então, representariam mais ou menos a idade que Jesus teria na ocasião, e, nesse caso, seu nascimento teria ocorrido cerca de dois a três anos antes da morte de Herodes, ou 6 a 7 anos antes de Cristo.
Tese idêntica é sustentada por Gerald Messadié. Só que, para comprová-la, ele recorre a uma outra passagem dos evangelhos, segundo a qual a chegada do Messias seria precedida de um sinal dos céus. Pois bem, há registros de que Júpiter e Saturno ficaram em conjunção (bem próximos um do outro) durante três vezes no ano 7 antes de Cristo: em maio, setembro e dezembro.O fenômeno era tão raro (houve uma conjunção igual em 1961 e a próxima será no ano 2100) que os astrólogos da época acharam que alguma coisa incomum estava para acontecer na Terra.
Onde Jesus nasceu - Em Belém ou Nazaré? Na opinião de Meier, a primeira das hipóteses apenas justifica antigas crenças judaicas (a dos essênios) de que o Messias descenderia de Davi e da aldeia de Belém. O mais provável, prossegue Meier, é que ele tenha nascido mesmo em Nazaré, pois em muitas páginas dos evangelhos fala-se em Jesus de Nazaré ou Nazareno. No Evangelho de João 1:45, por exemplo, está escrito: "...achamos aquele de quem Moisés escreveu no Livro da Lei e sobre quem os profetas também escreveram. É Jesus, filho de José, da cidade de Nazaré".
O aspecto físico, o idioma - Vários documentos apócrifos, incluindo uma carta de Públius Lêntulus, pró-cônsul da Galiléia, descrevem Jesus como alto, forte, cabelos repartidos ao meio, olhos amendoados, certamente um homem bonito. Parece que Jesus procurava a companhia dos mais humildes porque era mais fácil transmitir-lhes seus ensinamentos, uma vez que falavam a mesma lingua, o aramaico, como pensam Geza Vermes , Gerald Messadié e John Meier. Se é assim, muitos dos ditos de Jesus têm que ser repensados, pois a maioria deles foi traduzida do hebraico, que era o idioma das altas classes sociais da época. Um desses ditos, talvez o mais célebre de todos, é Eli, Eli, lama sabachtani , traduzido por Senhor, Senhor, por que me abandonaste? No mais puro aramaico, segundo o escritor Eric Butterworth, o correto seria Senhor (ou Pai), cumpri minha missão.
Quando morreu e com que idade - Se Jesus, como se viu antes, nasceu no ano 6 ou 7 antes de Cristo, e iniciou seu ministério, de acordo com a maioria dos pesquisadores, com cerca de 33 anos, entre os anos 27 e 28, depois exercendo-o por no mínimo três anos, ele teria cerca de 36 anos quando morreu. E isso, de acordo com Joachim Jeremias, um dos gigantes da história da Humanidade, aconteceu no décimo quarto dia de Nissan (o dia de preparação da Páscoa dos judeus), isto é, numa sexta-feira, por volta dos anos 30 a 31 depois de Cristo. Pelos cálculos de Jeremias era um 6 ou 7 de abril.
Como ele morreu? Descartando-se a possibilidade levantada por muitos gnósticos de que não teria sido Jesus o homem levado à cruz, e levando-se em conta os exames feitos no Sudário de Turim por legistas, cardiologistas e ortopedistas, é quase certo que ele tenha morrido por asfixia, algumas horas depois de ter sido crucificado. Foi quando, não se sabe por que, o mesmo céu da Palestina que se iluminou ao tempo de seu nascimento repentinamente escureceu, e, em algumas partes do Gólgota, a terra se abriu. Um mistério mesmo, pois não há registro de nenhum eclipse ou de qualquer terremoto na região naquela fatídica sexta-feira.
E sua ressurreição? É mais um dogma ou de fato aconteceu? Como disse o evangelista João, "muita coisa se contará ainda sobre Jesus". Inclusive que ele foi ressuscitado por seres que vieram de outras galáxias e que tinham acompanhado, às vezes de longe, às vezes bem de perto, sua missão. Seriam esses Ets os anjos que volta e meia surgem, fulgurantes, nos textos dos evangelhos, como imagina o escritor e jornalista espanhol J.J. Benitez, no romance O Enviado? É possível.
Mas essa é uma outra e fantástica história.

A Morte de Jesus




     No evangelho de São Lucas, encontramos um dos aspectos mais relevantes a respeito da Crucificação e que é narrado, igualmente, em outras crônicas antigas, mas que com frequência, não é levado na devida conta pelos exegetas da Bíblia: apesar de ser costume quebrar os ossos do corpo dos crucificados e fazê-los pender da cruz por vários dias, para que não houvesse qualquer possibilidade de sobrevivência, o corpo de Jesus foi retirado da cruz sem que seus ossos fossem quebrados.
     O que houve não pode ser posto à causa de um descuido dos soldados, pois estavam acostumados a fazer ao longo dos anos. Por esta razão, não podemos acreditar que se esquecessem de quebrar os ossos de Jesus.

     A Versão dos Evangelhos
     De onde teria vindo a nossa crença que Jesus teria "morrido" na cruz?
     Se observar-mos os Evangelhos, nenhum deles, nem o de Matheus, nem o de Marcos, nem o de Lucas, nem o de João afirmam - como fruto da observação de cada um destes discípulos, que Jesus morreu na cruz ou que já estava morto quando O removeram da cruz e O puseram na tumba.
     No Evangelho de São João (XIX:33) está dito que os soldados acreditaram que Jesus estivesse morto, porém São João não faz nenhuma afirmação em seu próprio nome e quando, mais adiante, menciona a lança enfiada no corpo de Jesus, não há motivos para não acreditar que se tratasse de uma ferida superficial. Por outro lado, o fato de sangue e água jorrarem de sua ferida, pode indicar que Ele ainda estava vivo. Porém, não há como se ter a mais absoluta certeza pois a forma como o corpo dos crucificados pendia, fazia com que o sangue se acumulasse nas extremidades inferiores e também que líquidos se acumulassem nos pulmões. Se o soldado que perfurou seu corpo com a lança (para se certificar se ainda estava vivo (?)) atingiu um dos pulmões, é bem provável que "sangue e água" jorrassem de sua ferida.

     O Credo dos Apóstolos,
     Neste Credo, comumente usado por todas as igrejas cristãs, há uma afirmação segundo a qual Jesus sofreu e morreu na cruz e é crença geral que as declarações contidas nesta obra foram extraídas de outras, formuladas pelos Apóstolos. A verdade, porém, é que a atual versão do Credo dos Apóstolos passou por inúmeras modificações ou alterações, no curso dos séculos após a Crucificação, durante os inúmeros altos concílios da Santa Igreja.
     No Evangelho de São Lucas (XXIV:5) se pergunta àqueles que buscam Jesus: "Por que procurai entre os mortos aquele que vive?".

     Não há, igualmente nos primeiros textos do referido Credo, nem tampouco nas atas das reuniões havidas nos concílios da Igreja, que os alteraram no curso dos séculos, nada que testemunhe tenha Jesus morrido na cruz ou no sepulcro, imediatamente após a Crucificação.
     A própria Enciclopédia Católica admite que várias altas autoridades haviam afirmado que o referido Credo não foi composto senão na segunda metade do século V de nossa Era e que não passa da mais pura lenda, forjada no curso do século VI, a suposta elaboração do Credo dos Apóstolos, no dia de Pentecostes.
     Com base nestas afirmações, talvez devessemos re-avaliar a crença de que Jesus teria morrido na cruz…

A Data do Nascimento do Menino Jesus


     Hoje, a data aceita mundialmente para as festividades natalina, é 25 de dezembro. Mas nem sempre foi assim.
     Nem mesmo os autores dos Evangelhos bíblicos estavam muito certos da data do nascimento de Jesus. Por exemplo, das declarações no Evangelho de São Mateus encontramos escrito que Jesus nasceu nos tempos do Rei Herodes, enquanto no Evangelho de São Lucas consta que Ele nascera quando Cirênio era governador da Síria, ou mais tarde. Estas duas declarações nos oferecem tema para discussão pois o reinado de Herodes terminou em 4 a.C. e as autoridades bíblicas declaram que o governo de Cirênio foi de 4 a.C. a 1 a.C. e, posteriormente, a 6 A.D.. Outro ponto controverso é a diferença em relação às datas em que se teria realizado o recensiamento de população realizado pelo Imperador romano Augusto, cujo ano é comumente aceito como o do nascimente de Jesus.

     Portanto, seria muito difícil para qualquer pessoa elaborar um calendário capaz de dar a data certa do nascimento de Jesus. Até mesmo os Santos Patriarcas da Igreja bem como eminentes autoridades eclesiáticas, por muitos séculos, não conseguiram fixar com exatidão a data de seu nascimento. Os cristãos primitivos celebravam a Natividade com um grande festival em maio, ou, por vezes, em abril e, em outras ocasiões em janeiro. Algumas das mais antigas tradições da Igreja fixavam, em definitivo, o 20 de maio como a data certa, enquanto outras insistiam em fixá-la a 19 ou 20 de abril.


     Hoje, nós já temos o apoio da Ciência para a confirmação dos dados apresentados. O astrônomo britânico Colin Humprey, professor da Universidade de Cambridge, afirmou em 1991que a conhecida Estrela de Belém, registrada com absoluta precisão pelos antigos astrônomos chineses, teria sido um cometa. Baseando-se nos seus cálculos, o cometa teria passado pela órbita da Terra 5 anos antes do início da Era Cristã. Apoiando-se nos relatos bíblicos, Humprey concluiu que o nascimento de Jesus ocorreu em abril, provavelmente entre os dias 13 e 27.


     É certo que, mesmo que seja comprovada a data exata de Seu nascimento, o 25 de dezembro deve continuar como a data oficial.

     Bibliografia
  •  O Globo (01/11/1991);
  •  A Vida Mística de Jesus, Biblioteca Rosacruz I – Editora Renes - H. Spencer Lewis

A Bíblia Passada a Limpo


Descobertas recentes da arqueologia indicam que a maior parte das escrituras sagradas não passam de lenda
por Vinícius Romanini
Para a Revista SuperInteressante
A disputa entre ciência e religião pela posse da verdade é antiga. No Ocidente, começou no século XVI, quando Galileu defendeu a tese de que a Terra não era o centro do Universo. Essa primeira batalha foi vencida pela Igreja, que obrigou Galileu a negar suas idéias para não ser queimado vivo. Mas o futuro dessa disputa seria diferente: pouco a pouco, a religião perdeu a autoridade para explicar o mundo. Quando, no século XIX, Darwin lançou sua teoria sobre a evolução das espécies, contra a idéia da criação divina, o fosso entre ciência e religião já era intransponível. Nas últimas décadas, a Bíblia passou a ser alvo de ciências como a filologia (o estudo da língua e dos documentos escritos), a arqueologia e a história. E o que os cientistas estão provando é que o livro mais importante da história é, em sua maior parte, uma coleção de mitos, lendas e propaganda religiosa.
Primeiro livro impresso por Guttemberg, no século XV, e o mais vendido da história, a Bíblia reúne escritos fundamentais para as três grandes religiões monoteístas - Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Na verdade, a Bíblia é uma biblioteca de 73 livros escritos em momentos históricos diferentes. O Velho Testamento, aceito como sagrado por judeus, cristãos e muçulmanos, é composto de 46 livros que pretendem resumir a história do povo hebreu desde o suposto chamamento de Abraão por Deus, que teria ocorrido por volta de 1850 a.C., até a conquista da Palestina pelos exércitos de Alexandre Magno e as revoltas do povo judeu contra o domínio grego, por volta de 300 a.C. Os 27 livros do Novo Testamento abarcam um período bem menor: cerca de 70 anos que vão do nascimento de Jesus à destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C.
O coração do Velho Testamento são os primeiros cinco livros, que compõem a Torá do Judaísmo (a palavra significa "lei", em hebraico). Em grego, o conjunto desses livros recebeu o nome de Pentateuco ("cinco livros"). São considerados os textos "históricos" da Bíblia, porque pretendem contar o que ocorreu desde o início dos tempos, inclusive a criação do homem - que, segundo alguns teólogos, teria ocorrido em 5000 a.C. O Pentateuco inclui o Gênesis (o "livro das origens", que narra a criação do mundo e do homem até o dilúvio universal), o Êxodo (que narra a saída dos judeus do Egito sob a liderança de Moisés) e os Números (que contam a longa travessia dos judeus pelo deserto até a chegada a Canaã, a terra prometida).
Das três ciências que estudam a Bíblia, a arqueologia tem se mostrado a mais promissora. "Ela é a única que fornece dados novos", diz o arqueólogo israelense Israel Finkelstein, diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv e autor do livro The Bible Unearthed (A Bíblia desenterrada, inédito no Brasil), publicado no ano passado. A obra causou um choque em estudiosos de arqueologia bíblica, porque reduz os relatos do Antigo Testamento a uma coleção de lendas inventadas a partir do século VII a.C.
O Gênesis, por exemplo, é visto como uma epopéia literária. O mesmo vale para as conquistas de David e as descrições do império de Salomão.
A ciência também analisa os textos do Novo Testamento, embora o campo de batalha aqui esteja muito mais na filologia. A arqueologia, nesse caso, serve mais para compor um cenário para os fatos do que para resolver contendas entre as várias teorias. O núcleo central do Novo Testamento são os quatro evangelhos. A palavra evangelho significa "boa nova" e a intenção desses textos é clara: propagandear o Cristianismo. Três deles (Mateus, Marcos e Lucas) são chamados sinóticos, o que pode ser traduzido como "com o mesmo ponto de vista". Eles contam a mesma história, o que seria uma prova de que os fatos realmente aconteceram. Não é tão simples. O problema central do Novo Testamento é que seus textos não foram escritos pelos evangelistas em pessoa, como muita gente supõe, mas por seus seguidores, entre os anos 60 e 70, décadas depois da morte de Jesus, quando as versões estavam contaminadas pela fé e por disputas religiosas.
Nessa época, os cristãos estavam sendo perseguidos e mortos pelos romanos, e alguns dos primeiros apóstolos, depois de se separarem para levar a "boa nova" ao resto do mundo, estavam velhos e doentes. Havia, portanto, o perigo de que a mensagem cristã caísse no esquecimento se não fosse colocada no papel. Marcos foi o primeiro a fazer isso, e seus textos serviram de base para os relatos de Mateus e Lucas, que aproveitaram para tirar do texto anterior algumas situações que lhes pareceram heresias. "Em Marcos, Jesus é uma figura estranha que precisa fazer rituais de magia para conseguir um milagre", afirma o historiador e arqueólogo André Chevitarese.
Para tentar enxergar o personagem histórico de Jesus através das camadas de traduções e das inúmeras deturpações aplicadas ao Novo Testamento, os pesquisadores voltaram-se para os textos que a Igreja repudiou nos primeiros séculos do Cristianismo. Ignorados, alguns desapareceram. Mas os fragmentos que nos chegaram tiveram menos intervenções da Igreja ao longo desses 2 000 anos. Parte desses evangelhos, chamados "apócrifos" (não se sabe ao certo quem os escreveu), fazem parte de uma biblioteca cristã do século IV descoberta em 1945 em cavernas do Egito. Os evangelhos estavam escritos em língua copta (povo do Egito).
O fato de esses textos terem sido comprovadamente escritos nos primeiros séculos da era cristã não quer dizer que eles sejam mais autênticos ou contenham mais verdades que os relatos que chegaram até nós como oficiais. Pelo contrário, até. Os coptas, que fundariam a Igreja cristã etíope, foram considerados hereges, porque não aceitavam a dupla natureza de Jesus (humana e divina). Para eles, Jesus era apenas divino e os textos apócrifos coptas defendem essa versão. Mesmo assim, eles trazem pistas para elucidar os fatos históricos.
A tentativa de entender o Jesus histórico buscando relacioná-lo a uma ou outra corrente religiosa judaica também foi infrutífera, como ficou demonstrado no final da tradução dos pergaminhos do Mar Morto, anunciada recentemente. Esses papéis, achados por acaso em cavernas próximas do Mar Morto, em 1947, criaram a expectativa de que pudesse haver uma ligação entre Jesus e os essênios, uma corrente religiosa asceta, cujos adeptos viviam isolados em comunidades purificando-se à espera do messias. O fim das traduções indica que não há qualquer ligação direta entre Jesus e os essênios, a não ser a revolta comum contra a dominação romana.
O resultado é que, depois de dois milênios, parece impossível separar o verdadeiro do falso no Novo Testamento. O pesquisador Paul Johnson, autor de A História do Cristianismo, afirma que, se extrairmos, de tudo o que já se escreveu sobre Jesus, só o que tem coerência histórica e é consenso, restará um acontecimento quase desprovido de significado. "Esse 'Jesus residual' contava histórias, emitiu uma série de ditos sábios, foi executado em circunstâncias pouco claras e passou a ser, depois, celebrado em cerimônia por seus seguidores."
O que sabemos com certeza é que Jesus foi um judeu sectário, um agitador político que ameaçava levantar os dois milhões de judeus da Palestina contra o exército de ocupação romano. Tudo o mais que se diz dele precisa da fé para ser tomado como verdade. Assim como aconteceu com Moisés, David e Salomão do Velho Testamento, a figura de Jesus sumiu na névoa religiosa.

Jesus

Segundo o Novo Testamento, Jesus nasceu em Belém, uma cidadezinha localizada oito quilômetros ao sul de Jerusalém, filho do carpinteiro José e de uma jovem chamada Maria, que o concebeu sem macular sua virgindade. Os evangelhos de Lucas e Mateus afirmam que Jesus nasceu "perto do fim do reino de Herodes". O texto de Lucas afirma que a anunciação aconteceu em Nazaré, onde José e Maria viviam, mas eles foram obrigados a viajar até Belém pelo censo "ordenado quando Quirino era governador da Síria".
Hoje, o que se sabe de concreto sobre Jesus é que ele nasceu na Palestina, provavelmente no ano 6 a.C., ao final do reinado de Herodes Antibas (que acabou em 4 a.C.). A diferença entre o nascimento real de Jesus e o ano zero do calendário cristão se deve a um erro de cálculo. No século VI, quando a Igreja resolveu reformular o calendário, o monge incumbido de fazer os cálculos cometeu um erro. Além disso, é praticamente certo que Jesus nasceu em Nazaré e não em Belém. A explicação que o texto de Lucas dá para a viagem de Jesus até Belém seria falsa. Os registros romanos mostram que Quirino (aquele que teria feito o censo que obrigou a viagem a Belém) só assumiu no ano 6 d.C. - 12 anos depois do ano de nascimento de Jesus. A história da viagem a Belém foi criada porque a tradição judaica considerava essa cidade o berço do rei David - e o messias deveria ser da linhagem do primeiro rei dos judeus.
A concepção imaculada de Maria é um dos dogmas mais rígidos da Igreja, mas nem sempre foi um consenso entre os cristãos. Alguns textos apócrifos dos séculos II e III sugerem que Jesus é fruto de uma relação de Maria com um soldado romano. A menina Maria teria 12 anos quando concebeu Jesus. Na rígida tradição judaica, uma mulher que engravidasse assim poderia ser condenada à morte por apedrejamento. O velho carpinteiro José, provavelmente querendo poupar a menina, casou-se com ela e escondeu sua gravidez até o nascimento do bebê. A data de 25 de dezembro não está na Bíblia. É uma criação também do século VI, quando o calendário foi alterado.
A Bíblia afirma que Jesus teve duas irmãs e quatro irmãos: Tiago, Judas, José e Simão. Mas não se sabe se esses eram filhos de Maria ou de um primeiro casamento de José. Muitos teólogos afirmam que eles eram, na verdade, primos de Jesus - em aramaico, irmão e primo são a mesma palavra. A Bíblia não fala quase nada sobre a infância e a adolescência de Jesus, com exceção de uma passagem em que, aos 12 anos, numa visita ao Templo de Jerusalém durante a Páscoa, seus pais o encontram discutindo teologia com os sábios nas escadarias do templo do monte. É quase certo, porém, que ele cresceu em Nazaré.
Jesus falava certamente o aramaico, a língua corrente da Palestina e, provavelmente, entendia o hebreu por ter tomado lições na sinagoga e por ler a Torá. Os evangelhos apócrifos o pintam como um menino Jesus travesso, capaz de dar vida a figuras de barro para impressionar os colegas e até mesmo a fulminar um menino que esbarrou em seu ombro, para ressuscitá-lo logo em seguida, depois de tomar uma bronca do pai.
Certamente José procurou iniciá-lo na arte da carpintaria e é provável que Jesus tenha trabalhado como carpinteiro durante um bom tempo. Oportunidade não lhe faltou. Escavações recentes revelaram que ao mesmo tempo em que Jesus crescia em Nazaré, bem próximo era construída a monumental cidade de Séfores, idealizada por Herodes Antibas para ser a capital da Galiléia. Séfores estava a uma hora a pé de Nazaré e é muito provável que José e Jesus tenham trabalhado ali. Em Séfores Jesus teria visto a passagem da família real de Herodes Antibas e a opulência das famílias de sacerdotes do Templo de Jerusalém. O fato de Jesus ter passado boa parte da sua vida ao lado de Séfores indicaria que ele não era um camponês rústico como já se pensou, mas tinha contato com a cultura do mundo helênico.
Aos 30 anos, Jesus se fez batizar por João Batista nas margens do rio Jordão. Segundo a Bíblia, durante o batismo João reconhece Jesus como o messias. Há registros históricos da existência de João Batista e, recentemente, arqueólogos encontraram entre o monte Nebo e Jericó, nas margens do rio Jordão, ruínas de um antigo local de peregrinação por volta do século III d.C.
Decidido a cumprir sua missão na terra, Jesus dirigiu-se então para a Galiléia, onde recrutou seus primeiros discípulos entre os pescadores do lago Tiberíades. Passou a viver com seus primeiros seguidores em Cafarnaum, cidade de pescadores próxima do lago de Tiberíades. Por dois anos Jesus pregou pela Galiléia, Judéia e em Jerusalém, proferindo sermões e contando parábolas. Segundo a Bíblia, realizou 31 milagres, incluindo 17 curas e seis exorcismos. Alguns dos mais famosos são a ressurreição de Lázaro, a transformação de água em vinho e a multiplicação dos peixes.
Cafarnaum, onde Jesus teria vivido com seus discípulos, era um povoado de cerca de 1 500 moradores naquela época. Escavações encontraram os restos da casa de um dos discípulos, provavelmente de Simão Pedro (hoje conhecido como São Pedro), além de um barco datado da mesma época da passagem de Cristo pelo lugar. Não há, porém, certeza quanto ao número de discípulos que viviam próximos de Jesus. Nos evangelhos, apenas os oito primeiros conferem - os quatro últimos têm muitas variações. A hipótese mais provável é que o número "redondo" de 12 discípulos foi uma invenção posterior para espelhar, no Novo Testamento, as 12 tribos dos hebreus descritas no Velho Testamento.
Depois de viajar por quase toda a Palestina, Jesus parte para cumprir seu destino - ou, segundo alguns especialistas, seu plano. Durante a semana da Páscoa, o principal evento religioso do calendário judeu, Jesus entra em Jerusalém montado num burro e atravessando a Porta Maravilhosa. Esse foi, certamente, um ato deliberado de provocação aos sacerdotes do Templo e à elite judaica. Jesus faz exatamente o que o profeta Zacarias afirmava na Torá que o messias faria ao chegar. Jesus estava mandando uma mensagem de provocação aos sacerdotes do Templo. No segundo dia da Páscoa, Jesus vai ao Templo e ataca os mercadores e cambistas raivosamente.
Na quinta-feira, percebendo que o cerco apertava, os apóstolos celebram com Jesus a última ceia. A imagem que ficou dessa cena, gravada por Da Vinci e outros pintores, nada tem de verdadeiro. Os judeus comiam deitados de flanco, como os romanos, e as mesas eram ordenadas em formato de U e não dispostas numa linha reta. Durante a ceia, Judas levanta-se para trair seu mestre - ou, como alguns sugerem, para cumprir uma ordem dada pelo próprio Jesus. A captura acontece no Jardim do Getsêmani, onde Jesus e seus discípulos descansavam no caminho para Betânia, onde ficariam hospedados.
Levado para o Sinédrio, o Conselho dos Sacerdotes do Templo, Jesus reafirma sua missão divina e é condenado. Existem provas da denúncia de Caifás a Pilatos. Estudiosos judeus afirmam, porém, que o julgamento perante o Sinédrio jamais ocorreu porque o Sinédrio não se reunia durante a Páscoa. Essa versão teria sido incluída tardiamente na Bíblia após a ruptura definitiva entre cristãos e judeus. Jesus foi morto pelos romanos porque era considerado um agitador político.
Na manhã de sexta-feira, na residência do prefeito Pôncio Pilatos, Jesus é condenado à morte. Ele atravessa as ruas de Jerusalém carregando sua própria cruz e é crucificado entre dois ladrões. O caminho que Jesus percorreu nada tem a ver com a Via Crúcis visitada pelos turistas hoje. Ela é uma criação do século XIV, quando a cidade esteve nas mãos dos cavaleiros cruzados. A maioria dos historiadores e arqueólogos concorda, porém, que o morro do Calvário (Gólgota), localizado ao lado de uma pedreira, foi realmente o lugar da crucificação. Concordam também que seu corpo tenha sido colocado numa das grutas próximas. O que aconteceu então depende da fé de cada um. Há varias versões: que Jesus teria sobrevivido ao martírio, que outra pessoa teria morrido em seu lugar, que seu corpo teria sido roubado ou, claro, que ele teria ressuscitado.

A Água Fluidificada

"E qualquer que tiver dado só que seja um copo d' água fria, por ser meu discípulo, em verdade vos digo que , de modo algum, perderá o seu galardão". --- Jesus. (Mateus, 10:42)
Meu amigo, quando Jesus se referiu à benção do copo de água fria, em seu nome, não apenas se reportava à compaixão rotineira que sacia a sede comum. Detinha-se o Mestre no exame de valores espirituais mais profundos.
A água é dos corpos mais simples e receptivos da Terra. É como que a base pura, em que a medicação do Céu pode ser impressa, através de recursos substanciais de assistência ao corpo e à alma, embora em processo invisível aos olhos mortais.
A prece intercessória e o pensamento de bondade representam irradiações de nossas melhores energias.
A criatura que ora ou medita exterioriza poderes, emanações e fluídos que, por enquanto, escapam à análise da inteligência vulgar, e a linfa potável recebe-nos a influenciação, de modo claro, condensando linhas de forças magnéticas e princípios elétricos, que aliviam e sustentam, ajudam e curam.
A fonte que procede do coração da Terra e a rogativa que flui do imo d' alma, quando se unem na difusão do bem, operam milagres.
O espírito que se eleva na direção do Céu é antena viva, captando potenciais de natureza superior, podendo distribuí-los a benefício de todos os que lhe seguem a marcha.
Ninguém existe órfão de semelhante amparo.
Para auxiliar a outrem e a si mesmo, bastam a boa vontade e a confiança positiva.
Reconheçamos, pois, o Mestre, quando se referiu à água simples, doada em nome de sua memória, reportava-se ao valor real da providência, a benefício da carne e do espírito, sempre que estacione através de zonas enfermiças.
Se desejas, portanto, o concurso dos Amigos Espirituais, na solução de tuas necessidades físico-psíquicas ou nos problemas de saúde e equilíbrio dos companheiros, coloca o teu recipiente de água cristalina, à frente de tuas orações, espera e confia. O orvalho de Plano Divino magnetizará o líquido, com raios de amor em forma de bênçãos e estarás, então, consagrando o sublime ensinamento do copo de água pura, abençoado nos Céus.
Emmanuel - "Mensagem extraída do livro Segue-me!..."

O Mistério da Ressurreição



     Teriam realmente os legionários que vigiavam a tumba de Jesus abandonado deliberadamente seu posto por causa de uma tempestade?
     Teria realmente havido uma tempestade?
     É engraçado como este assunto é muito pouco debatido pelas autoridades que estudam a vida do Mestre - ao mesmo tempo que se torna tão intrigante a medida em que descobrimos alguns fatos:
     O apeleamento ou castigatio era uma execução solene, que se aplicava não somente a soldados como também a oficiais. Incorriam nela tantos quantos abandonassem seu posto de guarda, os que se entregavam à pilhagem em casas e povoações, os que se insubordinavam aos chefes, os homicidas, os ladrões, os que perdiam suas armas, os que reincidiam pela terceira vez em uma falta, os que atentavam contra o pudor e os que eram responsáveis por negligência em seu posto de guarda noturno. Quanto a esta última falta, era considerada um dos piores delitos.
     A sentença se dava após um conselho sumaríssimo entre os tribunos e os soldados e poderia acabar em morte.
     Seria possível então que os legionários que vigiavam a tumba de Jesus abandonassem a guarda arriscando suas próprias vidas por conta de uma tempestade?
     Volto à pergunta: teria realmente havido uma tempestade?
     Consta que os sinedristas (membros do Sinédrio, ou sacerdotes), ao tomarem conhecimento que o corpo de Jesus havia sido reclamado pelos seus amigos e familiares, após a celebração da ceia de Páscoa, teriam se reunido na casa de Caifás para discutir a profecia feita por Jesus, de ressucitar ao terceiro dia. Não que acreditassem nas palavras de Jesus, mas temiam que seus seguidores "roubassem" Seu corpo e então dessem a entender que Ele havia ressucitado.
     Decidiram então por pedir a Pôncio Pilatos que lhes fornecesse alguns homens para se colocarem à frente da tumba pelo menos até o final do terceiro dia, para se certificarem de que ninguém tentaria levar o corpo de Jesus.
     Pelo que consta, Pilatos cedeu à pressão dos membros do Sinédrio e forneceu dez guardas para vigiar a tumba. Não satisfeitos, os sacerdotes teriam ainda enviado um grupo de dez dos seus para complementar a vigia.
     Abro aqui um parênteses para comentar sobre esta tumba. Os criminosos quando crucificados, eram jogados em uma vala comum, no Geena ou "inferno", como era chamada uma região onde perambulavam mendigos e onde queimavam o lixo da cidade.
     Ali, eram deixados para serem devorados por cães e ratos. Porém, a lei permitia que seu corpo fosse reclamado por amigos ou parentes, os quais poderiam então enterrar a vítima em uma tumba particular ou em terras da família. Cabe lembrar que os crucificados não podiam ser enterrados em cemitérios judeus nem dentro da Cidade Santa.
     O corpo de Jesus teria sido então reclamado por José de Arimatéia (membro do Sinédrio e amigo e seguidor dos ensinamentos de Jesus) à Pilatos que como era de costume, aceitou o pedido. For a levado então à sua casa, no Monte das Oliveiras, onde teria sido deixado em uma tumba dentro de suas terras.

     O Que Teria Acontecido Aquela Noite?
     A história da vida deste Mestre é cheia de fatos interessantes que os estudiosos insistem em esquecer, ou ignorar…
     Consta que na madrugada de domindo, os legionários e sinedristas acampados à frente da tumba do Filho do Homem sentiram dois ou tres tremores ou vibrações seguidos de um terrível "zumbido". Segundos depois, houviram um barulho como se a louça que cerrava a entrada da tumba de Jesus estivesse sendo removida. Mas como?
     Segundo estes legionários, a louça se movia sozinha, como se uma força misteriosa a estivesse abrindo. Neste momento, os membros do sinédro teriam fugido apavorados. Os legionários, no entanto, ficaram. Foi quando uma luz muito forte e brilahnte saiu de dentro da tumba e inundou o ambiente. Os legionários teriam então visto o Mestre da Galiléia retornar à vida, escoltado por figuras misteriosas…