O
Gênesis, a história do dilúvio é uma das
poucas que ainda alimenta o interesse dos cientistas, depois que os
físicos substituíram a criação do mundo
pelo Big Bang e Darwin substituiu Adão pelos macacos. O que
intrigou os pesquisadores foi o fato de uma história parecida
existir no texto épico babilônico de Gilgamesh - o que
sugere que uma enchente de enormes proporções poderia
ter acontecido no Oriente Médio e na Ásia Menor. Parte
do mistério foi solucionado quando os filólogos conseguiram
demonstrar que a narrativa do Gênesis é uma apropriação
do mito mesopotâmico. "Não há dúvida
de que os hebreus se inspiraram no mito de Gilgamesh para contar a
história do dilúvio", afirma Rafael Rodrigues da
Silva, professor do Departamento de Teologia da PUC de São
Paulo, especialista na exegese do Antigo Testamento.
O
povo hebreu entrou em contato com o mito de Gilgamesh no século
VI a.C. Em 598 a.C., o rei babilônico Nabucodonosor, depois
de conquistar a Assíria, invadiu e destruiu Jerusalém
e seu templo sagrado. No ano seguinte, os judeus foram deportados
para a Babilônia como escravos. O chamado exílio babilônico
durou 40 anos. Em 538 a.C., Ciro, o fundador do Império Persa,
depois de submeter a Babilônia permitiu o retorno dos judeus
à Palestina. Os rabinos ou "escribas" começaram
a reconstruir o Templo e a reescrever o Gênesis para, de alguma
forma, dar um sentido teológico à terrível experiência
do exílio. Assim, a ameaça do dilúvio seria uma
referência à planície inundável entre os
rios Tigre e Eufrates, região natal de Nabucodonosor; os 40
dias de chuva seriam os 40 anos do exílio; e a aliança
final de Deus com Noé, marcada pelo arco-íris, uma promessa
divina de que os judeus jamais seriam exilados.
Solucionado
o mistério do dilúvio na Bíblia, continua o da
sua origem no texto de Gilgamesh. No final da década de 90,
dois geólogos americanos da Universidade Columbia, Walter Pittman
e Willian Ryan, criaram uma hipótese: por volta do ano 5600
a.C., ao final da última era glacial, o Mar Mediterrâneo
havia atingido seu nível mais alto e ameaçava invadir
o interior da Ásia na região hoje ocupada pela Turquia,
mais precisamente a Anatólia. Num evento catastrófico,
o Mediterrâneo irrompeu através do Estreito de Bósforo,
dando origem ao Mar Negro como o conhecemos hoje. Um imenso vale de
terras férteis e ocupado por um lago foi inundado em dois ou
três dias.
Os
povos que ocupavam os vales inundados tiveram que fugir às
pressas e o mais provável é que a maioria tenha morrido.
Os sobreviventes, porém, tinham uma história inesquecível,
que ecoaria por milênios. Alguns deles, chamados ubaids, atravessaram
as montanhas da Turquia e chegaram à Mesopotâmia, tornando-se
os mais antigos ancestrais de sumérios, assírios e babilônios.
Estaria aí a origem da narrativa de Gilgamesh. Essa teoria
foi recebida por arqueólogos e antropólogos como fantástica
demais para ser verdadeira.
No
entanto, no verão de 2000, o caçador de tesouros submersos
Robert Ballard, o mesmo que encontrou os restos do Titanic, levou
suas poderosas sondas para analisar o fundo do Mar Negro nas proximidades
do que deveriam ser vales de rios antes do cataclisma aquático.
Ballard encontrou restos de construções primitivas e
a análise da lama colhida em camadas profundas do oceano provaram
que, há 7 600 anos, ali existia um lago de água doce.
A hipótese do grande dilúvio do Mar Negro estava provada.
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